16 julho 2012

das palavras bonitas

o que verdadeiramente me dói são os silêncios
que nunca habitámos do mesmo lado
porque o silêncio só pode ser partilhado
com aqueles que amamos até à loucura
só ele é a dádiva perfeita que não pede mais nada
a não ser um mesmo lugar para deitar a cabeça
e esperar que a madrugada lentamente
desfaça todos os segredos e nada mais seja preciso
para voltarmos a ter vinte anos
mesmo que os vinte anos
tenham morrido para sempre
na cidade em chamas


Alice Vieira

You can get addicted to a certain kind of sadness *


* Gotye

04 julho 2012

Love that will not betray you, dismay or enslave you *


* Mumford and sons

[há tanto tempo que não ouvia música nova]

04 maio 2012

dias de chuva e sol



It's you I'm looking for
All of my days
Soon I'll smile
I know I'll feel this loneliness no more
All of my days
For I look around me
And it seems He found me
And it's coming into sight
As the days keep turning into night
As the days keep turning into night
And even breathing feels all right
Yes, even breathing feels all right
Now even breathing feels all right
It's even breathing
Feels all right
 
 
... 

27 abril 2012

dos sinais

Alejandro Toledo é um bem sucedido criativo de uma agência espanhola de publicidade. Há dias, caminhava em Madrid quando viu um antigo companheiro de profissão. Cumprimentaram-se e ele percebeu que o outro ia buscar comida a uma instituição de solidariedade. Estou a contar-vos isto que li num jornal espanhol e não me sai da cabeça a frase de campanha de Sarkozy pedindo que votem nele para evitar uma crise como a da Espanha. E Mario Monti repetindo a cantilena. E a justa cólera dos espanhóis, Rajoy pedindo prudência nas declarações. Rajoy prudente, engolindo a cólera, engolindo a vontade de desatar o latim. Mas Toledo percebeu que o outro, ainda ontem, tal como ele, um publicitário bem sucedido, ia agora à sopa dos pobres. Viu que o outro entrou num refeitório social e saiu com a sua ração de comida. Por dentro, a dignidade amarfanhada. Por fora, a roupa cuidada, disfarçando a condição de novo pobre. Pode acontecer contigo, comigo. Já amanhã.
Alejandro Toledo ficou muito impressionado, a tal ponto que decidiu fazer um spot televisivo para a Caritas, chamando a atenção para a importância do trabalho humanitário. O resultado foi um filme comovente. Teria custado 40 mil euros. Mas todos os que nele participaram o fizeram gratuitamente. O homem que representa o novo pobre de Madrid é um malabarista que Toledo encontrou na rua. A menina que faz de sua filha é a filha de Toledo, o autor da campanha.


A primeira cena mostra-nos uma rua movimentada, fim de dia. A cidade já iluminada, reflexos de luzes nos estabelecimentos. Um homem, ainda jovem, caminha com uma menina. Agora ela pára. Encosta a cara ao vidro da montra. Tem um gorro roxo, uma mochila. Não larga um urso de peluche que aperta contra o peito.

O homem puxa uma enorme mala de viagem com rodas. Há uma loja de frutas. Atravessam, agora, um centro comercial. A menina chora junto a uma das montras. Depois senta-se no passeio. O pai incita-a a que prossiga. Estugam o passo, puxando a grande mala. O rosto do homem cruza-se com o de uma deusa da publicidade, num cartaz. Escureceu. É a menina que puxa agora a grande mala, como se fosse um cão pela trela. A casa pela trela. Há grupos de sem abrigo estendendo os seus cartões. O homem e a menina hão-de fazer o mesmo, adiante.

Agora amanheceu. Caminham de novo pelas ruas, entram na casa onde outros esperam não se sabe o quê. Podia ser uma sala de espera de um hospital. Sentam-se, o homem coloca uns sacos de plástico na cadeira ao lado. A menina não larga o urso de peluche. A fila começa a mover-se. Mulheres de bata branca estendem aos da fila embalagens com alimentos.

Saem para a rua. Agora estão sentados num banco de jardim. O homem abre a embalagem. É sopa, ainda fumegante. Ele dá sopa à menina. Talvez conte uma história enquanto leva a colher de sopa à boca da filha. Há um homem que toca acordeon. O homem e a filha sorriem. Abraçam-se. A menina corre para um escorrega.

...

Cala-te, Sarkozy. Um pouco de pudor. Verguenza.
 
 

09 abril 2012

Pessoa e Caeiro :)

"Não sabia que Caeiro fosse o senhor, disse Fernando Pessoa, e fez um ligeiro cumprimento com a cabeça. Alberto Caeiro fez-lhe um gesto fatigado para entrar. Entre, caro Pessoa, convoquei-o aqui porque queria que soubesse a verdade. Entretanto a tia-avó chegou com uma bandeja com chá e bolinhos. Caeiro e Pessoa serviram-se e pegaram nas chávenas. Pessoa lembrou-se de não espetar o dedo mindinho, porque não era elegante. Ajeitou a gola do seu fatinho à marinheiro e acendeu um cigarro. O senhor é o meu mestre, disse. Caeiro suspirou, e depois sorriu. É uma longa história, disse, mas é inútil contar-lha de fio a pavio, você é inteligente e compreenderá mesmo se eu saltar algumas passagens. Saiba apenas isto, que eu sou você. Explique-se melhor, disse Pessoa. Sou a sua parte mais profunda, disse Caeiro, a sua parte mais obscura. Por isso sou o seu mestre. Um campanário, na aldeia vizinha, deu as horas. E eu, o que devo fazer?, perguntou Pessoa. Deve seguir a minha voz, disse Caeiro, ouvir-me-á na vigília e no sono, às vezes hei-de perturbá-lo, outras vezes não quererá ouvir-me. Mas terá de escutar-me, deverá ter a coragem de escutar esta voz, se quer ser um grande poeta. Fá-lo-ei, disse Pessoa, prometo-lhe. Levantou-se e despediu-se. A tipóia esperava-o à porta. Agora torna- ra-se de novo adulto e tinha-lhe crescido o bigode. Para onde quer que o leve?, perguntou o cocheiro. Leve-me para o fim do sonho, disse Pessoa, hoje é o dia triunfal da minha vida. Era o dia oito de Março, e pela janela de Pessoa entrava um sol tímido."
em "Sonhos de Sonhos", de Antonio Tabucchi

22 março 2012

20 março 2012

a ganância

É muito feia... mas o tempo há-de dar razão.

12 março 2012

aqui entre nós, aconselho teimar. *

a vida é ligeira, a morte lampeira, a ferrugem teimosa, às duas por três foi-se o tempo de amar. e resta o silêncio, falho de rima ou prosa. aqui, entre nós; eternamente por deslindar...
* Júlio Machado Vaz

02 março 2012

outra vez...

citomegalovírus

argh

...velhas trapaças...