23 junho 2010

houve um dia destas semanas que pedi...

...para levarem o indicador de cada mão ao nariz. e depois de tanto, tanto esforço não conseguiram cumprir esta tarefa tão simples.

[medo]

18 junho 2010

um sorriso delimitando infinitos pactos de entendimento numa arca de alianças eternas dos homens de boa vontade *

O debate tinha chegado ao fim. Dois sábios tinham arguido os seus pontos de vista tão opostos como o fogo e a água. "a Pilar como se dissesse água". Tinham brandido naipes de conceitos que buscam há décadas em abismos de milénios profundos. E jogaram-nos em palavras de infinita precisão. Mais de 70 anos de um lado. Mais de 80 do outro: - Não tenho 87. Tenho 86. Diz um grito de rispidez de quem sabe que doze meses de vida são 365 milhões de eternidades. Ou 366. "a Pilar, que não deixou que eu morresse". "Também eu estive muito doente, de resto só esta semana é que voltei a dar aulas" disse o outro. Falaram de Deus e de deus com a eloquência dos conhecedores que já tinham pressentido os fins de tudo e tinham regressado mais um bocadinho. "a Pilar, os dias todos". Falaram da Palavra que ficou repetida em mil livros e mil línguas. "a Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar". Falaram da palavra que ficou e da que foi perdida. Da palavra do senhor que não se ouviu e da do Senhor que foi inventada. Falaram do princípio dos tempos que os dois procuram como nómadas por desertos ouvindo os murmúrios divinos que ambos julgam escutar. Um, os silêncios. O outro, os cânticos. Discutiram tudo isto com um reluzente brilhantismo apaixonado. Falaram sempre com uma afagante cordialidade que contagiou. Que enterneceu. Que foi solene. Que foi importante. Um apelo no fim. "Que a Declaração Universal dos Direitos do Homem inclua o direito à dissidência. E o direito à Heresia. "Oh homem, você não pode ser herege, não precisa disso se não acredita. Eu sim. Se escrevesse isso seria herege". Disse, defendendo as imagens e interpretações que vão adaptando o bem e o mal divino à vontade humana. "Mas quem é que vos deu o direito para alterar…para interpretar a Bíblia". E acabou. Infelizmente. Carreira das Neves o Catedrático franciscano foi o primeiro a levantar-se e a chegar-se a Saramago (ainda sentado) e num longo afago mascarado de aperto de mão prometeu uma ida a Lanzarote. "Qualquer dia". "Isso enchia-me de felicidade" Disse Saramago abrindo mais um sorriso delimitando infinitos pactos de entendimento numa arca de alianças eternas dos homens de boa vontade. Eu fiquei aos 62 anos subitamente cheio de vontade de chorar e de gratidão. Porque vivo no país de Saramago que tem como pátria a minha língua. Porque viajo com ele em jangadas de pedra que cruzam atlânticos e em passarolas que passam por cima da profunda maldade dos banais. Porque saltito pelas cortes de reis passados e impérios futuros montado no elefante mágico que ele nos deu para impressionarmos o universo. Porque sou também da pátria dele e sei que ele há-de viver por muitos anos nas ruas da minha cidade e ocasionalmente eu posso cruzar-me com ele, como a Joana Latino, minha colega, disse que gostava de fazer quando o entrevistou em Lanzarote. Porque ele vai continuar a ajudar-me a entender mais mundos que ainda não foram descobertos e que ele já conhece, porque viveu sempre na terra de amanhã onde eu nunca entrei. E que mos vai dando um a um. E eu fico mais rico. Porque ele vai continuar a começar os seus livros com dedicatórias encantadas com os hinos à vida de infinita beleza que só ele sabe compor. "a Pilar, a minha casa". Porque "sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo" como disse Ricardo Reis no ano da sua morte. Porque só há um país no mundo inteiro que tem um José Saramago e é o meu país. E o dele. Graças a Deus.
* Mário Crespo

[o encontro, esse era para ser em Agosto]

16 junho 2010

dar graças

festejar O amor
celebrar A vida


24 maio 2010

do insondável *

No insondável de nós, com a sua mutabilidade, se decide radicalmente a escolha do quem somos. E é esse quem somos que se enfrenta com as inumeráveis situações em que o sabemos – ou ficamos sem saber até à morte para muitas situações que a sorte nos tirou do caminho. É nessa relação da nossa liberdade com o incognoscível de nós que se cria o nosso «equilíbrio interior» - que é o único fundamento para as verdades humanas, com a determinação sensível do que está certo ou errado. A verdade é o amor – escrevi um dia. Porque toda a relação do mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pode esquecer. (…)
o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em razão ou mesmo em inteligência. Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um por o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente.
E só o consente, se o amar. (...)

* do impensável (Vergílio Ferreira in Pensar)

23 maio 2010

08 maio 2010

estrela pura aparecida ... eu te proclamo *



* Vinicius de Moraes
coisa tão mais linda

02 maio 2010

meia dúzia de coisas essenciais: *

o riso, o amor, os objectos amigos, todas as cores da história da pintura, o sol da manhã e o aceno cúmplice dos pássaros.
* Eduardo Prado Coelho

para dar as boas-vindas a maio...

...velhas trapaças...